Como resposta às bombásticas acusações do senador Jarbas Vasconcelos, o PMDB optou pelo silêncio. Mas foi um silêncio tão eloquente, tão barulhento, que teria sido melhor enfrentar a questão. A tentativa de ignorar as palavras do histórico membro do partido apenas agravou a situação. É como se a cúpula dissesse: tudo bem, nós (ou a maioria de nós) somos assim, e daí? E daí que se o PMDB acha que Jarbas estava apenas desabafando, a sociedade deve achar outra coisa; no mínimo precisa cobrar explicações convincentes.
Chegamos a tal ponto de desfaçatez na seara pública, que o fato de um político histórico dizer que o governo é medíocre e conivente com a corrupção, que o seu partido é infestado de corruptos, que o presidente do Senado é ultrapassado e que o senador Renan Calheiros não tem moral para assumir o cargo, é interpretado apenas como mau humor ou ciúmes de um membro desgarrado.
José Sarney, numa nítida tentativa de desdém, fugiu do debate, já que as acusações do senador Jarbas teriam sido genéricas. Ora, o seu nome foi citado escancaradamente. Ao dizer que o atual presidente do Senado poderia transformar a Casa em um novo Maranhão, o que foi dito, na verdade, é que o citado Estado é quase uma propriedade da família Sarney e não pode ser exemplo de administração. O tom foi pejorativo e, portanto, merecia uma resposta melhor do atingido. Transformar o Senado num Maranhão, em outras palavras, quer dizer transformá-lo numa agremiação quase familiar, fisiológica, descompromissada com os destinos da Nação. E o seu presidente acha que responder a tal ofensa é diminuir o debate.
Desde que o PMDB optou pelo silêncio, o barulho em torno do assunto aumentou consideravelmente. Quando Jarbas Vasconcelos disse que o Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo, alguma resposta incisiva necessariamente teria de haver, por parte do Governo. Mas o presidente Lula conta com o maciço apoio popular, com mais de oitenta por cento de aprovação, o que, segundo Jarbas, é justamente o resultado desses programas sociais.
O PMDB é um partido gigantesco e por isso mesmo reduto de todo tipo de gente. Existem, sem dúvida, muitos políticos honestos e dignos de respeito dentro da agremiação. Um deles é o senador Pedro Simon, dos poucos que não se calou e repercutiu as declarações do colega, demonstrando solidariedade. Certamente outras vozes se juntarão.
O constrangedor silêncio do PMDB reflete bem o modo como se encaram os problemas políticos no Brasil. Sempre que acontece algo do gênero os ofendidos se apressam logo em dizer que se trata de perseguição, que o fim é sempre eleitoreiro ou que o denunciante apenas busca os holofotes. Mas as declarações de Jarbas Vasconcelos, um peemedebista histórico, não podem ser encaradas dessa forma. No mínimo deve existir uma investigação séria. É certo que a sociedade já sabia de tudo o que foi dito pelo senador, mas quando tais acusações partem dos intestinos do partido, a coisa muda de figura. E movimentos peristálticos intestinais não costumam acabar bem. Nesse tipo de coisa, quanto mais se mexe...
Dídimo Heleno Póvoa Aires – advogado, membro das Academias Palmense e Tocantinense Maçônica de Letras.




