Maria Eugênia, a voz feminina da música goiana, intérprete do tema de abertura da última novela das 6 da TV Globo, “Araguaia”, fala ao DnoTO sobre sua carreira e sobre a música de seu chão. Exuberante, Eugênia é como uma Aurélia de Goiânia e de Goiás


Por Fabrício Silva

Quando Aurélia surgia na aurora fluminense, José de Alencar criava, em “Senhora”, talvez seu mais expressivo romance, a mulher que transformaria a sociedade do Rio de Janeiro por completo. O célebre escritor abriu sua grande obra dizendo: “Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela”. Em Goiás, quem brilha, já com 19 anos de carreira, é a estrela Maria Eugênia, intérprete de “Companheiro”, tema de abertura da última novela das 6 da TV Globo, “Araguaia”, cujo enredo focou em Goiás e na Guerrilha do Araguaia, o maior rio do estado. 

Estado de Goiás é componente especial da história moderna do Brasil não apenas por ter cedido parte de seu território à União para a realização do sonho de Juscelino Kubitschek: a construção de Brasília e do novo Distrito Federal. Antes disso, era o único estado brasileiro a fazer fronteira com o Sudeste, Nordeste  e com o Norte do país, isto é, era o mais extenso representante de uma das maiores savanas do mundo, o Cerrado, abastecido de belezas naturais, cachoeiras, frutos oridundos de árvores baixas e enroladas, folclore particular, culinária excepcional, e, claro, de boa música.

No fim da década de 80, Goiás foi dividido fazendo aparecer o grandioso Estado do Tocantins. Algo também interessante, geográfica e artisticamente, ocorreu: a união do Cerrado continuou de modo a formar uma outra grande parceria. Maria Eugênia, a voz feminina da música goiana, uniu seu canto afinado às letras extraordinárias de canções sobre o novo Estado do Tocantins, escritas nada menos que por seu maior compositor, Juraildes da Cruz.


Maria Eugênia precisou construir o canto em si mesma, partindo da timidez e da vergonha de estar em público para, aos poucos, mostrar sua capacidade musical e se firmar como uma talentosa intérprete. Da timidez, surgiu uma pianista – por academia – e uma afinada cantora que se tornaria a maior representante da voz feminina do Estado de Goiás. A cantora recebeu o DnoTO em sua casa, numa tarde ensolarada e repleta de natureza, de curiós, tucanos a tuiuius, pelo menos no nome das ruas de seu bairro, para a seguinte entrevista:

DnoTO: Como a música despertou na sua vida, ou como você se despertou para a música?
Maria Eugênia: Foi algo paradoxal. A música sempre fez parte de minha vida, uma vez que estudei piano desde os quatro anos de idade, como um costume de família. Minha família sempre foi ligada a instrumentos, artes plásticas, e todos tinham que aprender, pois era parte fundamental de nossa educação. Quando eu era adolescente gostava muito de poesia, mas tinha um sério problema: a timidez, daquele tipo de suar as mãos ao ficar em frente às pessoas. Para superar este problema, comecei a fazer teatro. Apaixonei-me pelo teatro e cheguei a pensar em ser atriz. Porém, quando já na universidade surgiu um concurso de canto, resolvi participar como matéria complementar, mesmo não tendo interesse em cantar, pois era muito tímida, e cantava muito baixo. Convidei um amigo violonista e entrei neste concurso interpretando duas músicas: uma de Fagner e Belchior, “Velas do Mucuripi”, e uma de Gilberto Gil, “Se eu quiser falar com Deus”. No palco, em frente a tanta gente, percebi que cantar era o que eu queria fazer, e aquilo me tocou, senti uma enorme emoção, e, daquele modo despretensioso, a música surgiu para mim, e estou desperta para ela até agora.

DnoTO: De acanhada pianista à cantora de palco?
ME: Foi como uma intuição, uma coisa estranha. Quando menina, nunca fui criativa ou exibicionista, daquelas crianças que sobem na mesa para chamar a atenção. No palco, quando tive que cantar “Se eu quiser falar com Deus”, uma canção eternizada na voz de Elis Regina, senti arrepios, e fiquei nervosa. A letra era linda, mas o pior aconteceu: cantei três partes e me esqueci do resto. Comecei a improvisar, olhava para o violonista e indicava para ele me seguir, no improviso, disfarçando os erros. Tão grande foi a emoção que voltou a letra e me soltei, envolvendo-me com o público. Saí de lá chorando, mas de ódio por ter errado. Numa comparação, na música erudita, não se pode jamais errar, e percebi, naquele momento, que a música popular, embora não seja flexível ao erro, é menos cobradora e permite o improviso. O público gostou e fez dissipar meu ódio com a falta de perfeição naquela performance.


DnoTO: Desse primeiro concurso já se vai quase 20 anos de carreira...
ME: E como o tempo passa rápido. Em Goiás, naquela época, como agora, havia muitas cantoras, e muita coisa boa em termos de música do Cerrado. Havia o Tião Pinheiro, o Genésio (do Tocantins), pois o Tocantins ainda era Goiás, e tinha todo um movimento, como os festivais regionais de canções. Era, na verdade, o final dos festivais, uma iniciativa interiorana e bastante rica de incentivar a música, a participação e as excelências de novos talentos, tudo de forma popular. Eu cheguei a participar do Festival da Canção de Inhumas. Hoje, perdi o medo do palco, e já fiz muitos trabalhos, como o “Solo Brasil”.

DnoTO: “Solo Brasil” já percorreu o mundo, que grupo é esse? Qual foi a receptividade da música brasileira por onde você passou?
ME: Percorremos o mundo, sim, e vimos como é maravilhoso e aconchegante. Com o projeto Solo Brasil pude levar a música do Cerrado a muitos países da Europa, África e América Central. No Teatro Trindade, em Lisboa, em 2009, gravamos quatro shows que serão parte de um futuro DVD. Sinto sempre o peso de representar a música brasileira no exterior, particularmente por termos, em relação à música, a pura excelência, algo como ser o Pelé, um representante elevado do Brasil. Esta oportunidade de formar o grupo Solo Brasil surgiu do convite de seu idealizador, o embaixador Lauro Moreira, quando nos conhecemos em apresentações que fiz na Expo-Lisboa, em Portugal, em 1998. Ele realizou este espetáculo anos antes em Barcelona, onde havia sido cônsul e contou naquela época com músicos brasileiros que moravam por lá. Surgiu a ideia, então, de remontar, no Brasil, e com músicos profissionais, um grupo para realizar o espetáculo que conta a história de 100 anos da MPB para percorrer o mundo. Tudo foi muito valioso e fomos recebidos de maneira grandiosa. O fato é que a música brasileira, em termo de expressão internacional, só perde para a norte-americana. Em nossa música, encontramos harmonia, melodia, e letras ricas. Mesmo assim, nunca realmente sabemos como seremos recebidos, apesar de todo o efeito mundial da música brasileira. Na Expo-Hanover, na Alemanha, por exemplo, achava que encontraria um público frio, mas todos entenderam bem a mensagem de nossos compositores. A música brasileira é uma prova que, sim, nós podemos colocar no mesmo lugar a beleza, a elaboração, a excelência, e o cuidado com a música, com sua alegria e ritmo. Penso que é a única música do mundo que permite misturar histórias envolventes, controle dos detalhes, um lindo espetáculo e o próprio amadurecimento do pensamento humano e sua essência formidável. Isso tudo faz com que a receptividade da música brasileira seja ainda melhor e mais robusta. O artista brasileiro, por conta da história de sua música, deve sempre estar em crescimento, não somente em relação à história da música brasileira, mas, sobretudo, em respeito ao público. É inegável que a música emociona muito e faz bem à alma; é impossível não se inspirar ao escutar o som gostoso de Chiquinha (Gonzaga) ou de Chico Buarque. Então, o Solo Brasil teve esta proposta: unir nosso melhor, isto é, a música e sua representatividade real, seja aqui em Goiás, seja na Jamaica, onde estivemos, seja em Lisboa ou Nova York.

DnoTO: Além deste projeto global, do que mais você tem feito parte?
ME: Puxa, muita coisa. O Cerrado brasileiro, além de riquíssimo em belezas naturais, é muito valioso em cultura e música, particularmente. Como cantora, não tenho como atender aos inúmeros convites para projetos, e para dar voz à profusão de boas canções que aparecem muito frequentemente. Uma coisa legal é que o Cerrado traz um bem genuíno, bastante próprio, que é a formação de canções a partir de sua própria existência, isto é, do folclore peculiar, dos frutos, da vegetação baixa, dos cajus do mato, do pequi, das procissões religiosas, da exuberância da natureza. Aqui em Goiás, por exemplo, nós temos inúmeros projetos bons, e é impossível fazer parte de todos. Eu participei de alguns deles, como o “Canto da Gente” e “Noites Goianas”, com participação de compositores regionais que cantam a sua rotina, sua terra, algo como Almir Sater faz com o Pantanal.


DnoTO: Você acha que “Companheiro”, o tema de “Araguaia”, é aquele hit, o carro-chefe que pode ser seu momento especial? Como apareceu esta oportunidade?
ME: Esta novela, na verdade, foi uma luz na minha vida. Tudo foi completamente inesperado, até mesmo o convite do Marcos Schechtman, o diretor da obra. Eu estava envolvida com o CD “Viver e Sorrir”, e recebi um convite de um dos diretores do programa “Som Brasil”, da Rede Globo, Ricardo Leão. Ele me ligou e disse que o Som Brasil queria fazer um programa em homenagem a Chico Buarque, um especial de fim de ano, e que gostaria que eu fizesse parte. Fiquei incrédula, pois além do alcance enorme do programa, o Chico foi e é um dos meus patamares, como o Juraildes (da Cruz, cantor e compositor tocantinense). O certo é que Chico Buarque me satisfaz em muitas vertentes, até naquele meu lado de atriz, misturando tudo com a grande letra, a visão diferenciada do mundo, enfim, eu amo Chico. Então, participei do programa, que foi, como de praxe, gravado ao vivo, e apresentado em dezembro passado, mas não deixava de pensar: “nossa, há tanta gente cantando Chico, e eles me convidaram...” Enfim, acredito que também por este link do Som Brasil, logo depois, estava em São Paulo fazendo shows e minha produção me avisou que o pessoal da Som Livre queria saber sobre a edição da música “Companheiro”. Pensei, “uai, o que é isso?”  Eu nem me lembrava da música, pois a canção nunca havia estado em um disco meu. Era parte de um projeto especial chamado “Eles por Elas”, do produtor Luiz Chaffin e do Reny Cruvinel. Esses produtores haviam escrito um livro sobre os compositores goianos, e depois resolveram gravar um CD com as músicas mais representativas desse livro. Eu já conhecia o Naire Siqueira, autor da letra de “Companheiro”, mas havia gravado a música para um disco de projeto, sem a menor pretensão comercial. Enfim, o diretor da novela gostou muito da música, e acabei sendo escolhida para interpretá-la em “Araguaia”, sendo, inclusive, convidada para cantar no lançamento do folhetim, em São Paulo. Como goiana, foi um momento mágico em minha vida.

DnoTO: Você acha que esta canção representa Goiás e a música do Cerrado?
ME: O próprio diretor da novela pensou que a música foi ideal para representar a temática da história. Para a produção, e concordo com isso, a música revela, sim, o encantamento da beleza do Cerrado, da natureza peculiar do rio Araguaia, e, por isso, é valorosa. “Companheiro” tem uma letra forte. É um mantra que ao mesmo tempo é doce, é suave, justamente o que é o Araguaia. Tem tudo a ver com a história do Solano (personagem principal da novela), pois ele desafia a maldição, acredita no bem, e percebe que tem força para mudar seu destino. Interessantemente, só depois que a música havia sido escolhida foi que o Schechtman descobriu que a letra tinha a ver com a Guerrilha do Araguaia – foi como intuição e sensibilidade fazendo parte de uma só iniciativa.

DnoTO: A novela acabou, mas você segue a todo vapor. Quais são os novos projetos?

ME: Acabamos de lançar um DVD novo, “Coisa Musical”, que traz um formato eclético, uma mistura dos discos que lancei depois de 2005, com muito samba, baião, música brasileira, e uma segunda parte que é uma homenagem à Cidade de Goiás, antiga capital, que é Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. No primeiro DVD, na parte extra havia dois clipes, um feito em Paris, e outro em Marrakesh. Neste segundo, achava que deveria apresentar alguma coisa tão boa quanto, e pensei: “o que posso fazer, ou apresentar? Sim, Goiás. Dessa maneira, fizemos como se fossem clipes, mas gravamos ao vivo, uma espécie de minishows em vários pontos da Cidade de Goiás, e com vários convidados. Na primeira parte do show não há convidados. Na segunda parte, eu faço uma homenagem aos meus parceiros, companheiros de outros projetos (Pádua, João Caetano, Luís Augusto e Amauri Garcia,Tom Chris e Lauro Moreira). As músicas de Juraildes estão nas duas partes. Porém, como eu havia acabado de participar do DVD dele, “Meninos”, não o chamei, e também já tinha feito um disco somente sobre ele, “Alma Leve”. Agora estamos fazendo apresentações pelo Brasil inteiro, divulgando o novo DVD, e programando aparições internacionais também.